
Arte é uma palavra utilizada para várias áreas da vida, não só para a arte plástica. Há arte do cozinheiro, como a arte do médico, a do pintor... O que diferencia a arte plástica da arte das outras profissões é a "comunicação"; o artista comunica idéias, e elas nos renovam e nos predispõem a pensar no mundo e resolver muitos dos nossos problemas cotidianos. Assim, a arte não é um luxo, mas uma necessidade. Mas essa necessidade não existe se o observador não tiver concentração demorada em uma obra de arte, e quanto mais ele sabe de dados importantes para a sua compreensão, melhor se aproveita da mensagem que ela transmite. Ora, a obra de Paulo Stocker comunica ao observador as idéias de seu tempo. Tomemos, por exemplo, "Cubatão". Esse trabalho remonta às primeiras obras de arte das civilizações primitivas egípcia e hebréia. Os egípcios retratavam seus deuses como seres humanos com cabeças de animais, e os hebreus dispunham da imagem de um anjo com cabeça de homem, corpo de touro e asas de águia, para comunicarem, ambos, que a vida prática era regida por esses seres divinos. Para eles, a semelhança com os animais se devia a peculiaridades próprias, como rapidez, astúcia, ou força. Em "Cubatão", Stocker apresenta um monstro demoníaco, engravatado, com luzes elétricas na cabeça, enorme e desenfreado, uma máquina que representa a idolatria pelo progresso do capital a qualquer custo, que castiga o homem na sua vida prática, arrancando-lhe saúde física, mental, e paz. Trata-se também de uma crítica social aos moldes de Guernica, de Picasso; além disso, ambas as obras se realizam perfeitamente na técnica que as concretizou. Tomemos, ainda, as obras dos dirigíveis e das maquinárias do Stocker. Há "ordem das coisas". Essa "ordem das coisas" nós chamamos de Kosmós. Kosmós, ou cosmos, é uma palavra grega que significa "pentear-se",mas, durante o progresso da filosofia grega, Kosmós deixou de ser um ato banal para significar "as coisas postas em ordem". Neste sentido, as obras dos dirigíveis e das maquinarias de Stocker apresentam ao observador movimentos impossíveis, que revelam a própria ordem do mundo do autor, seu kósmos, e, nessa ordem, Stocker diz, sempre de maneira bem humorada, como é que o universo caminha. Tais desenhos são ideativos, porque os movimentos da maquinaria são impossíveis, bem como a forma dos balões; contudo, também são um convite para ver o mundo de forma diferente. Esta é a mensagem da obra: comunica que as pessoas podem mudar a própria condição de estar no mundo, reverter processos negativos, e viverem como crianças, a se divertir, mesmo num trabalho tão cheio de responsabilidades como o nosso. Essa ação de comunicar algo através da arte faz do trabalho do Stocker artigo de primeira necessidade. Voltar a ser criança, para ter medo do monstro de Cubatão, e ser adulto, para modificar esse estado de coisas; manter-se criança vivendo no cotidiano, divertir-se com o inevitável maquinário tecnológico com o qual temos de lidar, dar asas à imaginação enquanto trabalhamos. Sem dúvida, mensagens importantes neste nosso século... Deste modo, a obra de Stocker é necessária para o observador, pois se remete não só ao estudo do desenho industrial, do movimento mecânico e dos sólidos geométricos e da arte primitiva das grandes civilizações, mas igualmente se utiliza desses mesmos processos tecnológicos para convidar o observador a viver um mundo mais interessante. É o artista a serviço da filosofia, da crítica social e da construção de uma vida melhor. Márcia regina medina.
Escrito por Paulo Stocker às 14h53
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